Lembra-te da Chama

Quando foge de uma batalha a lutará repetidas vezes, diziam em voz contínua os filhos da densa, profunda e baixa Cidade Eterna da Terra. Até que afinal se canse e avance duma vez, com peso e alma.

Já tentei cravar em pele para não permitir os devaneios da memória olvidar esta noção, uma centena de vezes, que a vida em seu ato-dança de cacofonia, vai repetindo-se sob palavras de mesmo substrato mas diferentes ritmos até que seus tímpanos sangrem. Ou seja, aprende-se ou permanece rodopiando em um eterno redemoinho.

Exceções? Sim, estas existem, mas há de se questionar se o esforço da pesquisa eleva ou diminui o ganho final. Arremessemo-nos portanto ao cerne em concreto, na força instrumental, aquele ato de partilha divina que alimenta o macaco-homem a cruzar o poente e atentar virar aquilo que prometera de si para si, a qual denominamos "Fé".

"E o que é esta que tu falas?" Explica-se: Quando tomas teu café da manhã correndo e sai para o trabalho tentando chegar no horário enquanto toda a cidade se aperta contando com que o trem e o ônibus alcancem à sua parada final. Quando exercita-se na academia sem levar em consideração se afinal os pesos já estão modificando algo de sua estrutura. Quando senta e toma um grosso livro que nada consegue entender e com este e o dicionário do lado, suja-se inteiro de tinta de caneta ao fazer anotações sem saber ao certo o que de fato lhe espera,  quando no fim do último capítulo.

Entende? Fé é crença sem verdadeira percepção contínua.

Por que vive e não optas por deitar morte ao corpo? Pois no fundo ( tirando mero instinto de sobrevivência) existe uma voz no seu profundo âmago, que vez ou outra eleva-se à frente da mente e relembra de que há algo mais nestes caminhos do que os sentidos lhe apresentam. É a mesma voz que no fim, ergue teu corpo mesmo quando parece haver uma enorme pedra no peito sufocando.

Outra forma de compreender, façamos uso da memória: Alguma vez já sentira aquela descarga de adrenalina quando conseguiu fazer algo que jamais acreditou possível? Essa força está continuamente presente, queimando em nosso ventre, fornecendo o combustível que não apaga-se com o cansaço ou com a fome.

A dificuldade é que não a sentimos de forma realmente presente, e sim, muitas vezes, tão somente quando o corpo sente-se ameaçado. Essa chama bendita permanece escondida, esperando queimar todos os seus receios, suas idéias de "Não consigo", "Não Posso". Pois é ela quando abrimos mão de tudo, nos impulsiona para tentar enxergar uma saída e mudar e afinal encarar nossos horrores mundanos. Tais como as asneiras que permitimos congelar todo ato. Como mudar de lugar, de idéia, de convívio ou hábitos, de construir algo em que verdadeiramente se acredite.

Coisas que o dia a dia nos apegamos a tomar como imutáveis. Cuja suposta segurança nos fere a vontade de agir mas que justamente por isso, aparenta nos reservar um espaço de sentido. "Vou mudar por qual razão?" E pensa-se: "Isso me incomoda mas estou bem assim, existem outros piores do que eu."

"Terminar? Largar ele/ela? Faz tanto tempo que estamos juntos, de que adianta tentar achar outra pessoa. E o risco de não achar alguém melhor?"

"Sair deste trabalho? É o que consegui, de que adianta arriscar? E se perder os benefícios?"

"Mergulhar nesta empreitada? Será? Todos vivem dizendo como seria idiota."

Atente-se, repito com insistência, tal como um mantra... Sua mente está ameaçada, cercada.

Pois se for teu Destino, mudanças hão de ocorrer. O relacionamento terminará, o trabalho te demitirá, as chances de que o presente seja sólido tal qual uma rocha é muito menor do que se imagina. Note como levam-se poucos anos para conquistar algo, mas dezenas, as vezes, centenas, para de fato deixar algo em pé? E mesmo assim... Vede que a vulnerabilidade não finda. Mesmo depois de tanto tempo investindo, nada garante que vai sobrar alguma coisa quando o cerco vital arrombar as portas das muralhas erguidas.

É nisto que muitos, inclusive minha pessoa, caem em armadilha, cuja causa não é necessariamente o questionar, mas sim o de aterrissar com força na lava vulcânica, virando figura estática ao modo de Pompéia. "Não quero levantar, não há motivo real em tentar."

Neste instante, quando na consciência esta metáfora fraca ganha ares de conclusão, pare e respire com profundidade... Expire e respire em um ciclo contínuo, com a devida atenção. Este ato é necessário para limpar a mente e acessar a chama, e por meio dela percebe-se que Vontade é maior do que o veneno que meu maior algoz, eu mesmo, injeta nos nervos com o intuito de paralisá-los. 

Afinal, realmente não há um sentido definido, viver não é algo que consiga-se pegar e simplesmente descrever com palavras em folhas soltas de cadernos alheios ao vento...

...Vida em ato é sensação terrível de marchar, pôr o pé adiante mesmo quando tudo ao redor é pura escuridão e parece apertar a garganta. E isso não é dizer que da noite ao dia sua cabeça será por fim domesticada- porque foi acostumada, foi treinada pelos hábitos a continuar se perguntar motivos, buscar razões para confiar, para ganhar certezas - porém mesmo diante de todo esse caótico emaranhado de sons fuzilando as têmporas, verás que cresce a visão duma águia cor de sangue diante de tudo. Mancha- águia que ao estender suas portentosas asas e batê-las, o faz com tanta força que as escápulas chegam a doer, clamando, gritando por movimento.

O eco interno, dentro de toda aquela negra escuridão, reascende com um grito: "E ANDAREI! HEI DE SAIR DESTA CAVERNA!" E a pisada forte, suada, é feita junto da explosão que ocorre em algum lugar no ventre. Chamas... Sim meus caros, chamas! Cuja finalidade não é meramente te fazer arder e ter a energia consumida, não, como pólvora, ela é o provento, o repasto que lhe arremessa na direção de realizar aquilo que até então era só a porcaria de um esboço.

Haverá dia, marque estas insanas palavras, deste macaco que sonha em cruzar a ponte do homem, em que manter-me-ei conectado sempre à esta fonte. Sem nunca perde-la de vista. É o maior desafio da minha vida que desejo abraçar. Mas até lá, sem pensar, continuarei à abraçar essa Fé e lutar, lutar, lutar...

... Pois recorda-te sempre: A VIDA É UMA GUERRA!!!

E viver sem lutar até o máximo que se é capaz não é viver. É jogar fora todo essa chance - que apesar de não conseguir compreender o sentido, o motivo, a razão crucial de acontecer - que Deus, O Senhor que Reina sob o Universo, providenciou à ti.

Recorda-te que crescer é a única real opção.

Comentários

Postar um comentário